Pisca-Pisca


É minha grande convicção que no nosso mais profundo ser, todos nós, sem excepção, nos achamos fanáticos por James Bond.

Veja-se o caso das luzes pisca-pisca nos automóveis.

Quem é que faz pisca nas nossas estradas?!?
Ninguém.
Ali seguimos nós a conduzir, tranquilamente, e à frente segue um qualquer Ford ou Volkswagen que de repente, ZUFFF!, já lá não está!
Uau!
Que Houdini!
Nem sequer nos avisou!
Desapareceu sem rasto!

E isto sucede assim todos os dias. Com milhares de condutores por esse país fora.

Lidamos desta forma com os piscas porque adoramos pregar partidas. Como se fôssemos ninjas. E mesmo quando viajamos com alguém ao lado que nos está a ensinar o caminho, a coisa processa-se mais ou menos assim:
-Ok, agora vais em frente e ali ao fundo viras à direita. (tempo... pausa...) Então? Não fazes pisca?
-Schiuu! Quero fazer uma surpresa ao gajo que vem atrás!


Mas esta nossa obsessão (por um lado) e despreocupação (por outro) em não usar os piscas do carro sucede ainda noutro caso, que é quando alguém nos incumbe de guiar toda a gente a um restaurante que ninguém conhece; ou, mais ainda, quando vamos em romaria desde a casa da noiva até à capela que ninguém sabe onde fica. Ali estamos nós, na dianteira, reis, lordes, caminhando sem vagar, à vontade, livres, heróis, sem nos preocuparmos em fazer qualquer pisca. E é precisamente por este excesso de confiança que, década a década, os noivos foram introduzindo mapas de estrada para os convidados darem com o sítio do repasto. E foi mais precisamente desde o aparecimento do automóvel e do não uso dos piscas que as noivas passaram a ser as últimas a chegar à igreja. Pois quando só havia carroças isto não acontecia. Mas agora, com os carros, e sem uso dos piscas, e indo elas no fim da fila, é lógico que as probabilidades de se perderem pelo caminho são enormes.

POSTED BY Ricardo Tomé
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DISCUSSION 1 Comment

One Response to : Pisca-Pisca

  1. Célia says:

    Não sabias que em portugal os piscas são só para enfeitar e os sinais são só para dar uma ideia?
    Adorei os textos.